O LIVRO DOS ESPÍRITOS *Estudo de: Eurípedes Kühl
PARTE TERCEIRA - Das leis morais
CAPÍTULO XII — DA PERFEIÇÃO MORAL - (questões 893 a 919)
12.1 – As virtudes e os vícios - (questões 893 a 906)
Falar em virtudes é falar de anjos — ambos se confundem.
Para tanto, todo respeito, reflexões demoradas, gratidão eterna.
Definir virtude será exercício sempre inacabado. Contudo, se imaginarmosque a virtude é a representação do Bem, não estaremos muito longe deentendimento, desde que considerando que o Bem é vitoriosa resistência ao mal.
Virtude sublime exerceremos quando atendermos ao próximo, sem qualquerinteresse que não seja o de ajuda, assim procedendo até mesmo com sacrifíciopróprio, se necessário.
Praticar o bem — ser caridoso — sempre é resultante de acerbos combatescontra o egoísmo... Guerrear os próprios vícios é evoluir e aproximar-se deDeus.
O patrimônio moral de um Espírito pode ser avaliado pela ausência ouprática de ação caridosa na sua vida. E se não for desinteressada, permanente,espontânea e anônima, não será ação caridosa.
Outro indicativo de evolução é seguramente o desapego dos bensmateriais.
Doar irrefletidamente não significa posse de virtude. Não deixa de haveralgum merecimento, pelo bem que vier a ser produzido, contudo, expõe mau zelocom a confiança ou responsabilidade de que seja depositário.
Não se configura um mal a caridade que trilha por desinteresse material,mas que, no fundo, se reveste da intenção de recompensa no plano espiritual.Com toda certeza há aferição divina de intenções em tudo o que fazemos e dessaforma ideal seria a prática caridosa sem idéia pré-concebida de dividendoscelestiais. Terão maior recompensa aqueles que fazem o bem infensos àexpectativa de qualquer retorno, neste ou no plano espiritual, ciosos de queapenas Deus contempla suas ações.
A busca de conhecimentos científicos é meritória e faz com que ainteligência se aprimore cada vez mais, disso decorrendo que quanto mais ohomem conhece, mais se aproxima da Natureza, que em última análise, é a grandeprofessora da Vida. Tudo o que o homem sabe aprendeu com ela! Tudo!
Um fato é óbvio: aquele que detém muitos conhecimentos não tarda aperceber que pela prática do amor ao próximo mais e mais se aproximará dafelicidade. Assim agir será decisão exclusiva dele próprio.
Ademais, só tudo sabendo um Espírito será perfeito.
OBS: À questão 899 nos deparamos com uma proposição interessante:
Dois ricos: um assim nascido e o outro nasceu pobre e depois enriqueceu.Ambos utilizam a fortuna a benefício próprio. Qual o mais culpado?...
— O que você responderia, caro leitor?
— Eu consignei que ambos, mas os Espíritos responderam a Kardec, com oajuizamento superior que detêm, que o segundo é mais culpado, pois o primeirodesconheceu a dor da pobreza, ao passo que este, dela se esqueceu...
Mal procede aquele que só pensa em acumular riquezas para legá-las aosherdeiros. Imaginando que bem procede, na verdade desliza pelo egoísmo.
OBS: À questão 901 somos colocados diante de outra proposiçãointrigante:
Dois avarentos: um nega até a si mesmo qualquer conforto e morre namiséria; o outro só é generoso para consigo mesmo, jamais fazendo favor paraquem quer se seja, no entanto, dando-se a fantasias e luxos exagerados. Outravez a mesma pergunta: qual o mais culpado e qual se achará em pior condição nomundo dos Espíritos?
Responda, querido leitor...
Pois é: dessa vez eu não arrisquei. Responderam os InstrutoresCelestiais de Kardec que o segundo, eis que o primeiro já foi parcialmentecastigado pelo próprio procedimento...
Almejar a riqueza para com ela fazer o bem... “Há alguém aí?”
Na Terra somos todos inquilinos de uma moradia de provas e expiações...
Como tal, imperfeitos. Ainda...
— Do que aproveitará descobrirmos erros alheios?
— Um único: não cometê-los. Dito de outra forma: identificando o orgulhoem alguém, impregnando nosso viver de humildade; captando mentira nas palavrasde quem quer que seja, passando só a dizer verdades; se considerarmos alguémavarento, áspero, falso, tudo fazer para ser pródigo, cordial, autêntico.
Escritores, modo geral, se provocam escândalos, por eles responderão. Aocontrário, se de seus escritos resultam bem, isso só será convertido em méritopara eles se procederem como escrevem. Se registram o bem, bem devemproceder...
É bom, logo útil, o indivíduo auto-identificar procedimentos, no bem ouno mal para, no primeiro caso, disso não se envaidecer e no segundo, coibi-lo.
12.2 – Paixões - (questões 907 a 912)
Estamos novamente diante de dificuldade interpretativa. Agora éreferente à paixão... Segundo os dicionários ela é “sentimento ou emoçãolevados a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se à lucidez e à razão; amorardente, afeto dominador e cego; desgosto, mágoa, sofrimento. Nos Evangelhos édescrita como o sofrimento dos santos, particularmente a Paixão do Cristo”.
Na verdade, a paixão é um sentimento nato, acoplado à alma para o bem,mas que exige temperança e controle absoluto na administração do que dela sedepreende.
Enquanto sentimento com aura celestial é poderosa força, capaz deimpulsionar a criatura a feitos extraordinários, via de regra a benefício deoutrem. Imbuído desse impulso e na obra que realiza o ser é, por assim dizer,um agente de Deus, já que seus feitos obedecem aos processos dos desígnios daProvidência. E nessas horas o amparo do mais Alto estará arrimando-o,invariavelmente.
Já o excesso passional terreno, que sempre trilha pelo abuso, desembocaem prejuízo (como, aliás, ocorre com qualquer excesso). E tal prejuízo nãoalcança apenas o agente, mas quase sempre, os que estão à sua órbita de vida,não apenas encarnados...
OBS: Retornando à questão 459 deste livro, temos patente que quasesempre temos companhias espirituais, que chegam até mesmo a nos dirigir. Nocaso da paixão fugir ao nosso controle, não objeta refletir que Espíritos poucoesclarecidos, ultra-apaixonados por causas infelizes, podem estar no governo denossos atos, mergulhados tanto quanto nós em paixões avassaladoras. Nahipótese, usam-nos como intermediários, apossando-se das ensandecidas vertigensresultantes. Nesse contexto somos infelizes nós e eles, restandodesestruturados e devedores morais, por termos nos associado e ofertadoinconscientemente canal e vazão de sensações menos nobres, fugazes.
A vontade é a mais poderosa ferramenta que o homem possui, e que oacompanha permanentemente. É por ela que o ser se liberta de todos os vícios,supera todas as tendências negativas, desenvolve e incorpora à sua vida aprática constante das virtudes. Vetor principal na subida evolutiva: a vontade!
12.3 – O egoísmo - (questões 913 a 917)
Em termos radicais o egoísmo é, de longe, o pior dos vícios.
É corrosivo potente de todas as virtudes.
Absolutamente incompatível com a justiça, o amor e a caridade.
Tudo que no mundo atrai e excita a alma, gerando desejo de possematerial tende a impedir a evolução espiritual. E são tantas essas tentaçõesterrenas...
O problema não é do planeta Terra e sim dos homens que nele habitam,cuja maioria está longe do desprendimento integral dos bens terrestres.
OBS: Todos os bens materiais são efêmeros. Uma simples reflexãodemonstra a veracidade dessa assertiva: onde está a casa mais luxuosa de milanos atrás? O traje mais luxuoso do mundo manufaturado há duzentos anos comoestá? Onde está o automóvel mais luxuoso fabricado há cem anos? Onde está aprimeira cabeça da coroa mais valiosa do mundo? E onde está o primeiro dedo doanel mais valioso do mundo? Quanto de ouro há no plano espiritual?
A posse de bens é característica primitiva do homem e persiste.
Não há escape: só compenetrando-se o indivíduo da importância da vidamoral ele automaticamente se desvencilhará dos arrastamentos da material. Eesse entendimento religião alguma oferta com tanta lógica quanto o Espiritismo,daí que não será presunção supor que a regeneração planetária a ele secondiciona.
Obvio que muitos são os homens abnegados e desprendidos, nãonecessariamente espíritas ou sequer conhecedores das lições evangélicas. O quese enfatiza é que a Doutrina dos Espíritos faculta à razão compreender o porquêda existência física, que se desdobra em muitas etapas reencarnatórias,enaltecendo o valor ímpar da evolução e da vida espiritual, imensamente maisvaliosa que a atual (terrena).
Na educação do espírito reside a extirpação do egoísmo da Humanidade.
Se o egoísmo é a fonte de todos os vícios a caridade o é de todas asvirtudes.
12.4 – Caracteres do homem de bem - (questão 918)
Um Espírito evoluído será reconhecido quando nenhum dos seus atos navida corporal não contrariarem a lei de Deus e, estando encarnado, compreendera vida espiritual.
Eis como age o homem de bem:
pratica a lei de justiça, amore caridade, com integral pureza;
está sempre perguntando àconsciência se não terá, algures, transgredido essa lei;
ajuíza que, se não fez o mal,teria feito todo o bem que podia?...
interroga-se quanto à eventualexistência de alguém com queixas a seu respeito;
pergunta-se ainda: o que vemfazendo é o mesmo que desejaria que lhe fizessem?
por caridade e amor faz o bempelo bem, sem almejar retribuição;
sacrifica seus interesses àjustiça;
usa de bondade, humanitarismo ebenevolência para com todos;
vê irmãos nos homens de todasas crenças e raças, conhecidos ou não;
se detém poder e riquezaatribui a posse disso a Deus, por empréstimo temporário e com destinaçãoexclusiva à prática do bem;
se detém chefia é bondoso paracom os auxiliares, aos quais jamais subjuga;
jamais condena, por saber-setambém frágil e passível de falhas;
o perdão é sua resposta paraqualquer ataque, fixando-se só em benefícios;
mantém integral respeito aopróximo, a quem considera exatamente igual a ele quanto aos direitos naturais.
12.5 – Conhecimento de si mesmo - (questão 919)
A melhor maneira de evoluir e de resistir à atração do mal é oconhecimento de si mesmo.
“Conhece-te a ti mesmo”, proclamava o filósofo grego Sócrates.
— Isso é fácil?
— De forma alguma: ao contrário, talvez seja a atitude mais difícil davida.
Santo Agostinho, um dos Espíritos que arrimaram Kardec na elaboraçãodeste livro, oferta longa reflexão à presente questão e dá conselhos. Vou sintetizar:
ao fim de cada dia interrogar àconsciência se fez algo errado ou magoou alguém;
nesse repasse feito a cadanoite, orar a Deus e ao anjo da guarda implorando auxílio para autodefinir sesuas ações daquele dia foram boas ou más;
nessas ações não mascarar aavareza de previdência; não se imaginar a única pessoa digna no mundo; delas oque pensam os amigos e principalmente os inimigos?
imaginar se determinadas açõesfossem feitas por outrem não teriam sua própria condenação...
se desencarnasse agora: aochegar ao plano espiritual não temeria encarar alguém “olho no olho”?
desse balanço moral, diário,sobre perdas ou lucros, dependerá dormir em paz e a segurança de que quandoatravessar “o grande rio da Vida” lá despertar bem.
OBS: Kardec, seguro, pragmático (aqui entendido como aquele que “ toma ovalor prático como critério da verdade”) e sensato como sempre, encerra essaquestão enfatizando respostas do tipo “sim” ou “não” para as interrogações quefizermos à consciência, tomando especial cuidado em não esconder ou dissimularalgumas das nossas atitudes, quase sempre faltosas...
Sindicação
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